sexta-feira, 20 de maio de 2011

Somos todos responsáveis pela construção da «Cidade»

A “Troika” terminou o seu trabalho, observou, ouviu, consultou, perguntou e chegou a conclusões – daí saiu um plano para “salvar” Portugal da «Banca Rota», diz-se. E dentro dias teremos eleições para a Assembleia da República que permitirá constituir um novo Governo, já se tendo iniciado o período de Campanha Eleitoral, como sempre, cheio de promessas e de …acusações mútuas.
Mas os portugueses já sabem – qualquer que seja o resultado eleitoral - que vão sofrer as inclemências do aperto das medidas que “salvarão” o país, a saber:
- Vai haver mais pobres, mais desempregados, mais falências e mais sofrimento nas bases da nossa sociedade. A chamada «Classe Média» vai ser verdadeiramente “esmagada” e dela sairão mais pobres. Os ricos sairão airosamente, desta crise, que não se sabe bem quando e como terminará.
- O Governo que sair das próximas eleições, não disporá de grande margem de manobra, pois estará «espartilhado» pelo programa que a crise motivou e nos é imposto por quem empresta o dinheiro necessário.
No meio desta paisagem quase apocalíptica como vão reagir os portugueses e os Cristãos em particular?
Eis uma preocupação da Comissão Justiça e Paz da Diocese de Setúbal depois de reflectir sobre tudo isto.

• Não podemos ficar indiferentes a comportamentos, atitudes e decisões que aumentem a pobreza e o desemprego e que dificultem o acesso à saúde, à habitação e ao bem-estar dos portugueses.
• Não podemos ficar indiferentes à permanência e continuidade dum sistema politico-económico que esquece a solidariedade e se mostra injusto, individualista e gerador de exclusões.
• Não podemos ficar indiferentes à hipoteca do nosso futuro por várias gerações, à desresponsabilização de décadas de má orientação política, à impunidade de comportamentos corruptos, à ganância do lucro, sobrepondo-se às verdadeiras necessidades dos cidadãos.
• Não podemos ficar indiferentes a comportamentos dos chamados responsáveis partidários que sobrepuseram e sobrepõem os seus interesses ideológicos, ou mesmo pessoais, aos interesses dos portugueses e especialmente dos mais pobres e sem voz.
Assim, a Comissão Justiça e Paz entende que os portugueses, e em especial os que orientam a sua vida pelos preceitos de Cristo têm a obrigação de:
• Não ficar indiferentes aos graves problemas equacionados acima ( L.Ex.-,18) *
• Não permanecerem calados perante as injustiças e as decisões anti-evangélicas (G.Spes 26 )**
• Recusar liminarmente a primazia do financeiro e do económico (e especialmente do especulativo) sobre o político e o social ( R.Hominis-15)***
• Não esquecer nunca a prioridade do trabalho em confronto com o capital (L.Ex.-,12)****
- Unir esforços e vontades numa manifestação de unidade e de solidariedade com os mais desprotegidos afim de serem força mobilizadora e transformadora da sociedade em crise (Act. 2, 42-47)
• Não esquecer que Jesus – o Verbo encarnado, o Amor em acto é “Aquele que dá força” pois é (ELE o disse) “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Deus Caritas Est)*****
Se assim procederem, os portugueses, a chamada sociedade civil, em especial as suas camadas mais jovens com um futuro incerto e hipotecado, saberão encontrar o seu Caminho para a Verdade e para uma Vida com Esperança.
Não podemos esquecer que uma situação de crise pode ser um ponto de partida para a nova mudança que se impõe.
E não devemos esquecer que todos somos responsáveis por esta situação pela nossa adesão a uma sociedade consumista, estando assim a sofrer as sequelas duma forma de vida que tem décadas, que é um verdadeiro padrão cultural no nosso mundo ocidental, que nunca soube distribuir a riqueza e está mostrando agora os seus vícios, em todo e qualquer lugar onde foi regra de vida
O Mundo precisa de mudar. Portugal precisa mudar. E a mudança só é benéfica e justa se todos participarmos nela inculcando os valores em que acreditamos.
Embora não possamos reduzir a nossa intervenção cívica ao acto de votar, temos de reconhecer que votar é muito importante Para ser possível tal mudança é necessário, com as regras que regem a nossa sociedade nesta época da história dos homens, manifestarmo-nos todos , repetimos todos, pelo VOTO esclarecido , sem esquecermos que a Democracia é o Poder de Todos. Não devemos entregar a qualquer, o direito de decidir por cada um de nós e não devemos esquecer, em especial nós os cristãos, que todos somos Igreja e que um outro mundo é possível.
A Comissão Justiça e Paz da Diocese de Setúbal
Maio de 2011

*Laborem Exercens. – 18 – É um facto que está a demonstrar, sem duvida alguma, que, tanto no interior de cada comunidade política como nas relações entre elas a nível continental e mundial – pelo que diz respeito à organização do trabalho e do emprego – alguma coisa não está bem, precisamente nos pontos mais críticos e mais importantes sob o aspecto social.
**Gaudium.et Spes – 26 – Todo o grupo deve ter em conta as necessidades e legítimas aspirações dos outros grupos, e mais ainda, o bem comum de toda a família humana (…) e o fermento evangélico suscitou e suscita, no coração humano, uma irreprimível exigência de dignidade
***Rendoptoris . Hominis – 15 – …ou, pelo contrário, crescem os egoísmos de várias dimensões (…)a tendência para exercer poder sobre os outros (…) a tendência para desfrutar de todo o progresso material, técnico e produtivo, exclusivamente com a finalidade de dominar, ou em favor deste ou daquele imperialismo.
****Laborem Exercens 12 – O trabalho é sempre causa eficiente primária, enquanto que o capital (…) permanece apenas instrumento (…) Este instrumento gigantesco e poderoso – que é o conjunto dos meios de produção, considerados, até certo ponto, como sinónimo de capital – nasceu do trabalho e é portador dos vestígios do trabalho humano.

*****Deus Caritas Est – Bento XVI –Toda a segunda parte da Encíclica



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