quinta-feira, 11 de outubro de 2012

OS CRISTÃOS E A CRISE



J Paz

Comissão Justiça e Paz

Diocese de Setúbal

OS CRISTÃOS E A CRISE

O nosso País atravessa um dos períodos mais dramáticos da sua vida pós 25 de Abril com a crise económico-financeira actual que em nome da ameaça de bancarrota oprime os portugueses com uma austeridade asfixiante.

No distrito de Setúbal, onde vivem cerca de 850 mil pessoas (8% da população residente em Portugal) as situações seguintes espelham aspectos desta crise nacional e europeia

 Cerca de 53 800 trabalhadores, em Abril de 2012, estavam inscritos nos Centos de Emprego do Distrito.

 Mais de 18 000 destes trabalhadores tinha menos de 35 anos.

 Estima-se que os desempregados não inscritos nos Centros de Emprego representam mais de 25% dos que estão inscritos.

 A precariedade no emprego atinge mais de 50 000 trabalhadores (muitos trabalhadores por conta de outrem assumem-se como trabalhadores por conta própria e passam os chamados recibos verdes).

 Os jovens até 35 anos representam 50% dos trabalhadores com vínculos precários.

 Cerca de 23 500 desempregados inscritos nos Centros de Emprego não recebem qualquer subsídio.

 Cerca de 150 mil pensionistas auferem pensões médias de 392 Euros

 21.000 pensionistas por invalidez recebem pensões de 392 Euros, em média

 61.000 pensionistas de sobrevivência recebem em média 238,34 Euros

 Estima-se que um em cada quatro idosos se encontre em risco de pobreza.

 Nos Centos Paroquiais que prestam apoio social a crianças e idosos, aumenta o número de utentes que não tem possibilidade de pagar a sua comparticipação nos medicamentos e consultas médicas.

 Muitas Paroquias têm intensificado as campanhas de recolha de bens, sobretudo alimentares, para os que necessitam.

O grande drama do Distrito de Setúbal é, no entanto, o desemprego, com todo o role de consequências que arrasta: depressão social, pessoas entregues a si próprias sem perspectivas de futuro.

E as falências, com lojas fechadas e ruas desertas provocam ambientes de desolação e desespero.

Esta situação que vivemos no distrito de Setúbal (e também em todo o Portugal), é fruto dum Sistema economicista globalizante, baseado numa ânsia de lucro a qualquer preço, reinante na União Europeia, no Mundo em geral e, por consequência, em Portugal.

O povo português que pacientemente tem resistido a todas as mudanças restritivas que lhe têm sido decretadas atingiu o seu limite e veio para a rua dizer "basta!"

E os cristãos ?Como reagem?

Reconhecendo que "é nas situações de tensão que a Igreja deve estar presente, mesmo que tenha de assumir riscos…(1) , a Conferência Episcopal Portuguesa elaborou um documento (2) doutrinal bem inserido na situação nacional actual concluindo pela necessidade de "uma revolução cultural" que vise a mudança das pessoas e das estruturas organizativas por que nos regemos.

A Comissão Nacional Justiça e Paz, (3) publicou uma exaustiva análise da situação portuguesa e da acção dos seus governantes e aponta múltiplas falhas á sua acção á luz da Doutrina Social da Igreja e, duma maneira geral, da ética social.

Os cristãos têm que participar, nessa "revolução cultural" de que falam os bispos, criando no dia á dia um intenso e puro espírito de solidariedade para com todos, e em especial para com os mais necessitados.

Qualquer que seja a sua situação no mercado de trabalho - trabalhadores ou patrões – devem sentir um forte apelo à entreajuda e, em especial no que respeita à função social das empresas.

A Comissão Justiça e Paz de Setúbal, face à situação na nossa Diocese, solidariza-se com todos aqueles que sofrem com as medidas de austeridade quando elas ultrapassam o limite do razoável, com os que se revoltam por sentirem que tais medidas não são aplicadas a todos conforme as suas possibilidades, com aqueles que vivem o desespero do desemprego e mesmo a fome por falta de apoios sociais.

A CDJP de Setúbal faz um veemente apêlo a que os cristãos marquem a diferença nas nossas comunidades.

E não esqueçamos que qualquer mudança só é exequível quando muitos se associam com o objectivo de provocar tal mudança – e os cristãos têm de estar presentes pois estão unidos no Corpo Místico do Cristo que deu a vida por Amor, pelos pobres e excluídos.

Neste dia em que se inicia o Ano da Fé devemos recordar, sobretudo aos cristãos, que a Fé que dizem professar os impele a intensificar o testemunho do Amor aos outros homens seus irmãos. E como recordava S.Tiago (4): "De que aproveita irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salva-lo? Se um irmão ou irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhe disser: ide em paz e tratai de vos aquecer e de matar a fome, mas não lhes dais o que é necessário, de que lhes aproveitará?. Assim também a fé, se ela não tiver obras está completamente morta."

E lembremos, por último, S.João que chama mentirosos aqueles que dizem que amam a Deus e não amam os seus irmãos! (5)

(1)Palavra do antigo Arcebispo católico de Argel – H.Teissier
(2)"Missão da Igreja num País em Crise" – Cof Episcopal Portuguesa
(3) "Os números e as pessoas" Comissão Nacional Justiça. e Paz
(4) Evangelho de S.Tiago (2,14-18)
(5) Evangelho de S.João
 
 
Setúbal, 11 de Outubro de 2012
O Presidente da Comissão Diocesana Justiça e Paz
Mário da Silva Moura