J Paz
Comissão Justiça e Paz
Diocese de Setúbal
OS CRISTÃOS E A CRISE
O nosso País atravessa um dos períodos mais dramáticos da sua vida pós 25 de Abril com a crise económico-financeira actual que em nome da ameaça de bancarrota oprime os portugueses com uma austeridade asfixiante.
No distrito de Setúbal, onde vivem cerca de 850 mil pessoas (8% da população residente em Portugal) as situações seguintes espelham aspectos desta crise nacional e europeia
Cerca de 53 800 trabalhadores, em Abril de 2012, estavam inscritos nos Centos de Emprego do Distrito.
Mais de 18 000 destes trabalhadores tinha menos de 35 anos.
Estima-se que os desempregados não inscritos nos Centros de Emprego representam mais de 25% dos que estão inscritos.
A precariedade no emprego atinge mais de 50 000 trabalhadores (muitos trabalhadores por conta de outrem assumem-se como trabalhadores por conta própria e passam os chamados recibos verdes).
Os jovens até 35 anos representam 50% dos trabalhadores com vínculos precários.
Cerca de 23 500 desempregados inscritos nos Centros de Emprego não recebem qualquer subsídio.
Cerca de 150 mil pensionistas auferem pensões médias de 392 Euros
21.000 pensionistas por invalidez recebem pensões de 392 Euros, em média
61.000 pensionistas de sobrevivência recebem em média 238,34 Euros
Estima-se que um em cada quatro idosos se encontre em risco de pobreza.
Nos Centos Paroquiais que prestam apoio social a crianças e idosos, aumenta o número de utentes que não tem possibilidade de pagar a sua comparticipação nos medicamentos e consultas médicas.
Muitas Paroquias têm intensificado as campanhas de recolha de bens, sobretudo alimentares, para os que necessitam.
O grande drama do Distrito de Setúbal é, no entanto, o desemprego, com todo o role de consequências que arrasta: depressão social, pessoas entregues a si próprias sem perspectivas de futuro.
E as falências, com lojas fechadas e ruas desertas provocam ambientes de desolação e desespero.
Esta situação que vivemos no distrito de Setúbal (e também em todo o Portugal), é fruto dum Sistema economicista globalizante, baseado numa ânsia de lucro a qualquer preço, reinante na União Europeia, no Mundo em geral e, por consequência, em Portugal.
O povo português que pacientemente tem resistido a todas as mudanças restritivas que lhe têm sido decretadas atingiu o seu limite e veio para a rua dizer "basta!"
E os cristãos ?Como reagem?
Reconhecendo que "é nas situações de tensão que a Igreja deve estar presente, mesmo que tenha de assumir riscos…(1) , a Conferência Episcopal Portuguesa elaborou um documento (2) doutrinal bem inserido na situação nacional actual concluindo pela necessidade de "uma revolução cultural" que vise a mudança das pessoas e das estruturas organizativas por que nos regemos.
A Comissão Nacional Justiça e Paz, (3) publicou uma exaustiva análise da situação portuguesa e da acção dos seus governantes e aponta múltiplas falhas á sua acção á luz da Doutrina Social da Igreja e, duma maneira geral, da ética social.
Os cristãos têm que participar, nessa "revolução cultural" de que falam os bispos, criando no dia á dia um intenso e puro espírito de solidariedade para com todos, e em especial para com os mais necessitados.
Qualquer que seja a sua situação no mercado de trabalho - trabalhadores ou patrões – devem sentir um forte apelo à entreajuda e, em especial no que respeita à função social das empresas.
A Comissão Justiça e Paz de Setúbal, face à situação na nossa Diocese, solidariza-se com todos aqueles que sofrem com as medidas de austeridade quando elas ultrapassam o limite do razoável, com os que se revoltam por sentirem que tais medidas não são aplicadas a todos conforme as suas possibilidades, com aqueles que vivem o desespero do desemprego e mesmo a fome por falta de apoios sociais.
A CDJP de Setúbal faz um veemente apêlo a que os cristãos marquem a diferença nas nossas comunidades.
E não esqueçamos que qualquer mudança só é exequível quando muitos se associam com o objectivo de provocar tal mudança – e os cristãos têm de estar presentes pois estão unidos no Corpo Místico do Cristo que deu a vida por Amor, pelos pobres e excluídos.
Neste dia em que se inicia o Ano da Fé devemos recordar, sobretudo aos cristãos, que a Fé que dizem professar os impele a intensificar o testemunho do Amor aos outros homens seus irmãos. E como recordava S.Tiago (4): "De que aproveita irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salva-lo? Se um irmão ou irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhe disser: ide em paz e tratai de vos aquecer e de matar a fome, mas não lhes dais o que é necessário, de que lhes aproveitará?. Assim também a fé, se ela não tiver obras está completamente morta."
E lembremos, por último, S.João que chama mentirosos aqueles que dizem que amam a Deus e não amam os seus irmãos! (5)
(1)Palavra do antigo Arcebispo católico de Argel – H.Teissier
(2)"Missão da Igreja num País em Crise" – Cof Episcopal Portuguesa
(3) "Os números e as pessoas" Comissão Nacional Justiça. e Paz
(4) Evangelho de S.Tiago (2,14-18)
(5) Evangelho de S.João
Setúbal, 11 de Outubro de 2012
O Presidente da Comissão Diocesana Justiça e Paz
Mário da Silva Moura
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