terça-feira, 23 de novembro de 2010

É URGENTE HUMANIZAR A VIDA

Comissão Justiça e Paz

Diocese de Setúbal

Um Cristão deve ser o AMOR em acção. E assim acreditamos que um outro mundo é possível. Bento XVI

O panorama actual, que a todos nos envolve, parece desesperante e desolador. Os países ricos, não obstante a sua riqueza, atravessam problemas graves de desemprego e de falta de crescimento; os países em vias de desenvolvimento vêem crescer a pobreza e a recessão; os países mais pobres passam ainda mais fome e miséria.
Por todo o mundo, bancos abrem falência, empresas fecham, aumenta o desemprego, as polícias não têm mãos a medir, os tribunais não administram a justiça com a necessária rapidez, a corrupção campeia, etc, etc.
Noutro plano, os casais desesperam e separam-se, os jovens vivem o imediato e cultivam a violência, os velhos são considerados cada vez mais um peso e angustiam-se com a solidão e a doença.

Tudo isto, e muito mais coisas desagradáveis, resumem-se numa palavra que nos enche há muito os ouvidos e os olhos – são as consequências da CRISE.

Esta crise não é de hoje, nem dos últimos anos. Tem raízes históricas profundas. Afinal parece que a nossa sociedade, a nossa organização social e política, a civilização em que vivemos tomou caminhos que não trouxeram verdadeiro desenvolvimento sustentado, nem felicidade: produziu muito sem necessidade, distribuiu pessimamente a riqueza, cavou abismos entre ricos e pobres e sugou sem conta nem medida os recursos da nossa natureza.
É assim em Portugal e com maior ou menor incidência por todo o mundo conhecido, desde o ocidente até ao oriente – e se algum país parece não ter sido apanhado pela crise, verificamos que anseia caminhar para a mesma organização social, económica e política e para ela caminhará, inexoravelmente, para o mesmo modelo e para a mesma CRISE.

Será então inevitável que o homem caminhe para a sua destruição e infelicidade?

Foquemo-nos na nossa realidade portuguesa – será que não há futuros risonhos, que tudo será desgraça, pobreza e infelicidade?
Que dirá a tudo isto um Cristão? Onde estão o Amor e a Solidariedade? Onde está o Reino que Deus prometeu? Será que domina o reino das trevas?
Afinal que uso fazemos da liberdade? E que fizemos da Fraternidade e da Democracia?

A Comissão Justiça e Paz de Setúbal reflectiu a respeito desta Crise, que nos acompanha há décadas, e na situação conjuntural que hoje vivemos. Esta sociedade globalizada, consumista que privilegia o «ter» em vez do «ser», cuja organização se baseia no “deus-mercado”, limitou a solidariedade, entregou o poder aos detentores do Capital e colocou em segundo plano o trabalho. Nesta sociedade, o económico, o financeiro e o especulativo absorveram e colocaram ao seu serviço a política e os políticos. O medo limita a liberdade e a intimidade de cada um. Os verdadeiros valores da verdade, da sinceridade, da caridade, (até da cultura e da arte) são substituídos pelo favor, pela mentira, pela agressividade, pela exclusão e pelo marketing. Nesta sociedade globalizada é absolutamente necessário mudar de “sistema”, de “paradigma”, de organização sócio-política, centrando tudo no Homem, no seu bem estar, na verdadeira liberdade e igualdade e não na posse de dinheiro.
É urgente mudar esta forma  de ser e de estar. Serão os PEC,s os sacrifícios materiais, as mudanças de políticos, os conselhos do FMI ou das Agências de Rating, os empréstimos estrangeiros ou mesmo melhores e mais rápidos tribunais, que vão resolver toda esta situação em que vivemos? Provavelmente, estas alterações serão necessárias mas, seguramente, o fundamental é mudar o coração dos homens. É necessário que apareça um verdadeiro “homem novo” que viva a verdade, a justiça, a solidariedade e o Amor ao próximo – afinal é apenas necessário que vivamos cristãmente, como Cristo viveu, amando sempre e em toda e qualquer circunstância – mesmo até ao sacrifício da vida (tal como ELE fez) para mudar este mundo.

Os Cristãos têm a obrigação de acreditar que será possível mudar este mundo corrupto, venal, egoísta e imediatista. Deus habita no coração dos homens.

É evidente que os detentores do Capital, que o anseio do poder e da riqueza, estão organizados a nível mundial, que governos, partidos e ideologias várias têm máquinas bem organizadas e dominam os centros de decisão.
É verdade que não se preconiza qualquer caminho da violência, da agitação social, da guerra ou da revolução armada, mas apenas a “violência da caridade” como dizia D.Helder Câmara, a violência do Amor.
Afinal preconiza-se que os Cristãos simplesmente sejam imitadores de Cristo nas suas famílias, nos seus empregos, nas várias agremiações da sociedade, sejam de que natureza forem, não esquecendo as organizações de natureza política.
Apela-se a que a mensagem evangélica seja “gritada de cima dos telhados”, que a luz do Amor não seja posta “debaixo do alqueire”, que não esqueçamos que “não podemos servir a dois senhores”, que nos lembremos que “temos em nós Aquele que nos dá força” e que sempre que mais de “dois ou três estejam juntos ELE estará no meio de deles”.Isto quer dizer que teremos de viver de outro modo, que temos de ser sempre solidários, que teremos de denunciar todas as formas de injustiça, que teremos de renunciar à ostentação e ao desperdício, que teremos de saber colocar os bens da natureza ao serviço do Homem e que teremos a obrigação de nos empenharmos em prol da sociedade em que vivemos para a transformar em algo de habitável que se aproxime do Reino que Jesus nos anunciou.
Traduzido em linguagem profana, apela-se para que todos, sem excepção, se sintam responsabilizados pelos problemas das classes mais desfavorecidas e se combata “a ânsia obsessiva do lucro que conduz à desumanização da vida”. Faça eco em nós o apelo dos Bispos Portugueses, “à partilha e à solidariedade de todos, sabendo que a sociedade espera gestos concretos da Igreja neste campo”.
Neste momento que vivemos é urgente a participação e o empenhamento social e político dos Cristãos, colaborando numa profunda e extensa reforma da sociedade, encaminhando-a para bem longe desta sociedade de consumo. É preciso que surja uma «Mundo Novo» onde não persistam formas de exploração humana, onde o trabalho seja dignificado e cada homem e mulher sinta que a sua dignidade é profundamente respeitada. Para tal desiderato torna-se absolutamente necessário que os Cristãos e todos os Homens de boa vontade abandonem posições de comodismo, conformismo e negativismo e se tornem homens de acção.


Comissão Justiça e Paz, Novembro 2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

REFLEXÕES APÓS A VISITA DE BENTO XVI

Passado mais um período pascal, propício a reflexões sobre a nossa vivência cristã, terminada a visita do Papa Bento XVI que nos encheu de boa e má informação sobre o que foi, o que é e o que deveria ser o papado e a nossa IGREJA, pretende a Comissão Justiça e Paz da Diocese de Setúbal, reflectir um pouco, passada que é toda esta agitação mediática.

E perante a crise profunda que se vive na sociedade actual, crise que não é somente financeira, económica e política, pois é igualmente – o que é mais grave – uma crise social e ética, parece-nos apropriada uma reflexão sobre o que é ser cristão hoje, no sec.XXI, sobre as razões da tão apregoada crise e, ainda, sobre a própria Igreja.

Aproveitando até algumas opiniões de que se está perante uma verdadeira crise civilizacional, perante uma possível viragem de civilização, como várias aconteceram do decorrer da história da nossa humanidade, mais oportuno nos parece reflectir sobre o papel dos cristãos nestas circunstâncias.

Consideramos meramente especulativas as agitações em redor da pedofilia de alguns sacerdotes, tendo sobre esses factos apenas um pensamento de desagrado, de vergonha e de perdão, tal como para com tantos outros factos de abusos sexuais que pelo mundo fora mancham os costumes, a moral e a dignidade das crianças.

Partimos da realidade insofismável de que ser cristão é aderir à pessoa de Jesus Cristo e viver como ele viveu, em prol dos pobres, dos excluídos e dos doentes - isto é, ser cristão é viver o Amor pleno em todas as circunstâncias e em todos os momentos, ser cristão é deixar de ser egoísta e individualista, deixar de viver impulsionado pelo desejo de poder e de ter, mas viver animado sempre pela solidariedade e com a preocupação na entreajuda dos outros, nossos irmãos.
E ser cristão é acreditar que Jesus não morreu para o nada, mas para a vivência duma realidade perene que é o Amor, e acreditar que com a sua Ressurreição este é o destino de todos os que O seguem com verdade.

E se a crise que o mundo actualmente vive com todas as características acima apontadas levou a um crescimento de riqueza nunca atingido e a uma deficientíssima distribuição da mesma, tem levado a guerras e a doenças, bem como a um generalizado clima de insegurança e agitação, é legítimo perguntar onde estavam os cristãos durante todo este processo evolutivo da nossa sociedade?
E onde estava e como se sentiu a acção correctora e incentivadora da nossa hierarquia que se arroga a ter o privilégio do apoio do Espírito a que chamamos Santo?

Apesar de o número de cristãos ter crescido no mundo, no nosso Ocidente vive-se uma crise de vocações, da frequência nas igrejas e da prática dos sacramentos, nascem movimentos e correntes de opinião contestatárias das regras tradicionais oriundas da Instituição Igreja, aumenta a secularização e perde-se entre o nevoeiro civilizacional a presença duma viva e eficiente acção dos cristãos.

O teólogo KUNG, condiscípulo do Cardeal Ratzinguer, contesta violentamente a acção do Vaticano e aconselha os cristãos preocupados e não conformados a não calar as suas preocupações, a apoiar um forte desejo de reformas, a lutar por uma democraticidade na vida da Igreja que deve deixar de ser uma monarquia absoluta, e estimula os cristãos a apoiar uma petição ao Papa para que se reúna um novo Concílio onde participem cristãos de todas as opiniões para que se chegue a consensos sobre o que deve ser a nossa Igreja neste sec. XXI.

O jesuíta Henri Boular divulga igualmente uma carta enviada ao Papa fazendo apelos veementes no mesmo sentido.

Entre nós um D.Januário Torgal “sonha” com um Papa que não seja chefe de estado, que não ostente riquezas, use microfones dourados e tenha privilégios chocantes

Um teólogo como Frei Bento defende a diversidade de opiniões, o direito a que sejam manifestadas opiniões sem medo de represálias, que se equacionem problemas como o do papel das mulheres na vida eclesial, o celibato dos sacerdotes, a nomeação dos bispos, etc., etc.

A Comissão Diocesana Justiça e Paz gostaria de ver a nossa Igreja estruturalmente influenciada pelo “velho” Concílio Vaticano II, gostaria de ver atenuarem-se influências de correntes tradicionalistas e fechadas ao diálogo, gostaria de ver as paróquias na nossa Diocese com uma viva preocupação com os pobres, como um local de troca de experiências, de ideias e de entreajuda eficaz, gostaria de ver renascida uma Assembleia Diocesana onde houvesse um profícuo diálogo entre os fieis e os pastores, gostaria de ver e sentir uma Igreja mais viva e actuante na vida da sociedade em que se insere.

A Comissão abstêm-se de fazer comentários à pessoa do Papa Bento XVI que respeita como representante de Pedro a quem Jesus recomendou o pastoreio da sua Igreja.
Mas entende que na hora actual que se vive os cristãos têm a obrigação de se manifestarem, não só na denúncia do que entendem não se coadunar com o Evangelho de Jesus, mas essencialmente numa acção visível em prol duma Igreja renovada numa sociedade igualmente “despoluída” dos factores que a corrompem.

E não será isto um verdadeiro mandato de Cristo a que todos dizemos que aderimos e que seguimos?

Mário Moura

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Á ATENÇÃO DOS CRISTÃOS!

Toda a liturgia do Advento falou aos cristãos da vinda de Deus até nós para recompensar os que seguiram as suas determinações.
Toda a liturgia nos foi falando duma vinda gloriosa de Deus sobre a humanidade, fazendo um enérgico apelo a que estejamos preparados para essa chegada.
Todos os textos das várias celebrações tiveram esta tonalidade dum Deus que vem de fora, de algures, para julgar e recompensar uns e condenar outros.
E apresentou-nos descrições e previsões dum mundo todo ele impregnado de mal e de depredações que Deus vem repor no Caminho correcto e saudável.

Será bom que nesta quadra natalícia pensemos nas interpretações duma liturgia que nos dá a noção de que a Salvação deste Mundo em que vivemos , e que atravessa uma fase de guerras, maldades, corrupções, doenças e agressões à própria natureza, há-de chegar um dia de fora, de fora do coração dos homens, quando é pela sua má conduta, pelo seu esquecimento da vida de Jesus, pelo seu individualismo e falta de solidariedade e amor que o mundo está na situação em que está, sendo portanto o próprio homem que tem de abrir-se ao Amor para transformá-lo, com a força do Espírito
Pensemos numa única realidade, a de que é no coração dos homens que se tem de operar a grande conversão, que é o coração dos homens que tem de se encher de Amor pelo próximo , nosso irmão, nesta quadra e sempre, em todas as circunstâncias e épocas – e será verdadeiro e permanente Natal.
No Natal, acenderam-se luzes nas ruas dos quatro cantos do mundo, deram-se prendas e desejaram-se festas cheias de felicidade numa tentativa de incutir de fora para dentro um sentimento de alegria que deverá caracterizar, ou deveria caracterizar, a vinda do Amor à vida dos homens, esquecendo todo um esforço que tem de ser feito, de dentro para fora, por cada um dos que nos dizemos cristãos.
E no Natal esquecem-se ódios, dão-se bodos aos pobres e aos que têm fome, para depois voltar tudo à mesma situação se essa alegria não irradiar de cada um de nós, se não for verdadeira e genuína – e só assim será verdadeiro Natal.
Jesus, de quem celebrámos simbolicamente o nascimento, é a incarnação do Verbo, “a imagem de Deus invisível” (Col.1,15), o Deus feito homem, e veio para nos ensinar com o Seu exemplo como deveríamos estar na vida e como nos devíamos comportar para com os outros homens que declarou nossos irmãos – e deu-nos a medida desse Amor que devia caracterizar a todos os que quisessem seguir as suas orientações : ELE era o único Caminho, a única Verdade e a única forma de Vida, dando-nos como medida uma entrega total , até ao sacrifício da nossa própria vida!
Não esperemos portanto que Algo tenha vindo de fora e pensemos – isso sim – numa verdadeira conversão ao Amor total, já que Deus é o Amor, e o único mandamento que nos deixou foi (é ) amá-LO a ELE e ao nosso irmão como a nós mesmos.
E isso é que é NATAL!

Mário Moura