quinta-feira, 20 de maio de 2010

REFLEXÕES APÓS A VISITA DE BENTO XVI

Passado mais um período pascal, propício a reflexões sobre a nossa vivência cristã, terminada a visita do Papa Bento XVI que nos encheu de boa e má informação sobre o que foi, o que é e o que deveria ser o papado e a nossa IGREJA, pretende a Comissão Justiça e Paz da Diocese de Setúbal, reflectir um pouco, passada que é toda esta agitação mediática.

E perante a crise profunda que se vive na sociedade actual, crise que não é somente financeira, económica e política, pois é igualmente – o que é mais grave – uma crise social e ética, parece-nos apropriada uma reflexão sobre o que é ser cristão hoje, no sec.XXI, sobre as razões da tão apregoada crise e, ainda, sobre a própria Igreja.

Aproveitando até algumas opiniões de que se está perante uma verdadeira crise civilizacional, perante uma possível viragem de civilização, como várias aconteceram do decorrer da história da nossa humanidade, mais oportuno nos parece reflectir sobre o papel dos cristãos nestas circunstâncias.

Consideramos meramente especulativas as agitações em redor da pedofilia de alguns sacerdotes, tendo sobre esses factos apenas um pensamento de desagrado, de vergonha e de perdão, tal como para com tantos outros factos de abusos sexuais que pelo mundo fora mancham os costumes, a moral e a dignidade das crianças.

Partimos da realidade insofismável de que ser cristão é aderir à pessoa de Jesus Cristo e viver como ele viveu, em prol dos pobres, dos excluídos e dos doentes - isto é, ser cristão é viver o Amor pleno em todas as circunstâncias e em todos os momentos, ser cristão é deixar de ser egoísta e individualista, deixar de viver impulsionado pelo desejo de poder e de ter, mas viver animado sempre pela solidariedade e com a preocupação na entreajuda dos outros, nossos irmãos.
E ser cristão é acreditar que Jesus não morreu para o nada, mas para a vivência duma realidade perene que é o Amor, e acreditar que com a sua Ressurreição este é o destino de todos os que O seguem com verdade.

E se a crise que o mundo actualmente vive com todas as características acima apontadas levou a um crescimento de riqueza nunca atingido e a uma deficientíssima distribuição da mesma, tem levado a guerras e a doenças, bem como a um generalizado clima de insegurança e agitação, é legítimo perguntar onde estavam os cristãos durante todo este processo evolutivo da nossa sociedade?
E onde estava e como se sentiu a acção correctora e incentivadora da nossa hierarquia que se arroga a ter o privilégio do apoio do Espírito a que chamamos Santo?

Apesar de o número de cristãos ter crescido no mundo, no nosso Ocidente vive-se uma crise de vocações, da frequência nas igrejas e da prática dos sacramentos, nascem movimentos e correntes de opinião contestatárias das regras tradicionais oriundas da Instituição Igreja, aumenta a secularização e perde-se entre o nevoeiro civilizacional a presença duma viva e eficiente acção dos cristãos.

O teólogo KUNG, condiscípulo do Cardeal Ratzinguer, contesta violentamente a acção do Vaticano e aconselha os cristãos preocupados e não conformados a não calar as suas preocupações, a apoiar um forte desejo de reformas, a lutar por uma democraticidade na vida da Igreja que deve deixar de ser uma monarquia absoluta, e estimula os cristãos a apoiar uma petição ao Papa para que se reúna um novo Concílio onde participem cristãos de todas as opiniões para que se chegue a consensos sobre o que deve ser a nossa Igreja neste sec. XXI.

O jesuíta Henri Boular divulga igualmente uma carta enviada ao Papa fazendo apelos veementes no mesmo sentido.

Entre nós um D.Januário Torgal “sonha” com um Papa que não seja chefe de estado, que não ostente riquezas, use microfones dourados e tenha privilégios chocantes

Um teólogo como Frei Bento defende a diversidade de opiniões, o direito a que sejam manifestadas opiniões sem medo de represálias, que se equacionem problemas como o do papel das mulheres na vida eclesial, o celibato dos sacerdotes, a nomeação dos bispos, etc., etc.

A Comissão Diocesana Justiça e Paz gostaria de ver a nossa Igreja estruturalmente influenciada pelo “velho” Concílio Vaticano II, gostaria de ver atenuarem-se influências de correntes tradicionalistas e fechadas ao diálogo, gostaria de ver as paróquias na nossa Diocese com uma viva preocupação com os pobres, como um local de troca de experiências, de ideias e de entreajuda eficaz, gostaria de ver renascida uma Assembleia Diocesana onde houvesse um profícuo diálogo entre os fieis e os pastores, gostaria de ver e sentir uma Igreja mais viva e actuante na vida da sociedade em que se insere.

A Comissão abstêm-se de fazer comentários à pessoa do Papa Bento XVI que respeita como representante de Pedro a quem Jesus recomendou o pastoreio da sua Igreja.
Mas entende que na hora actual que se vive os cristãos têm a obrigação de se manifestarem, não só na denúncia do que entendem não se coadunar com o Evangelho de Jesus, mas essencialmente numa acção visível em prol duma Igreja renovada numa sociedade igualmente “despoluída” dos factores que a corrompem.

E não será isto um verdadeiro mandato de Cristo a que todos dizemos que aderimos e que seguimos?

Mário Moura

Sem comentários: