Frei Bento
Domingues O.P.
Foi a Europa que forneceu a trama
interior do que esteve em causa no Vaticano II.
1. Consta que, pouco tempo depois
de o Papa João XXIII ter chegado ao Vaticano, perguntaram-lhe: quantas pessoas
trabalham aqui? Resposta: mais ou menos
metade...
Aumentou
o vencimento dos trabalhadores e, de vez em quando, ia dando uma mãozinha aos
mais sobrecarregados. Introduziu mudanças no protocolo, trocando o estilo
hierático de Pio XII por um trato mais distendido, modesto e bem-humorado. Ao
fazer a barba, teve a inspiração de convocar um novo concílio. Anunciou-o no
dia 25 de Janeiro de 1959. Foi uma bomba. Com razão. Depois da declaração do
primado do Papa e da sua infalibilidade, no Vaticano I (1869- 1870), certos
teólogos tinham divulgado a ideia de que doravante não haveria mais concílios,
pois o Papa estava em condições de resolver sozinho todos os problemas. Como,
porém, esse concílio do séc. XIX não tinha sido oficialmente encerrado — as
tropas italianas invadiram Roma em 1870 —, parece que Pio XI, no começo dos
anos 20, e Pio XII, nos princípios dos anos 50, teriam tido a ideia de o
completar. E o que agora se diz, sobretudo quando se pretende desvalorizar o
atrevimento de João XXIII, ao mostrar pelas decisões e pelas atitudes
que não seria mais um Pio, nem um continuador do Concílio do
Vaticano I. Queixam-se alguns de que o aldeão de Sotto Il Monte, Ângelo
Giuseppe Roncalli, não tinha um projeto, desenhado com clareza, para a reunião
mais vasta da história do mundo. Na opinião de Karl Rahner, com este concílio
teria começado a terceira idade na história do cristianismo. A primeira foi a
do breve período da Igreja judeo- cristã ; chegou ao fim quando S. Paulo abriu
a sua pregação aos pagãos. A segunda partiu daí e veio até ao Vaticano II : foi
a época da helenização e da Igreja europeia. A terceira é a do tempo
pós-conciliar, a da Igreja universal.
2. As periodizações são
sempre ambíguas. Como observa O’Malley, o Vaticano I foi muito eurocêntrico. As
questões nele debatidas tinham a sua origem na Europa ocidental: O império
romano, a reforma gregoriana, a Reforma e Contra-Reforma, as Luzes, a Revolução
Francesa, o Risorgimento a perda dos
Estados pontifícios, o nazismo, o Holocausto, a democracia cristã etc. Foi a
Europa — os seus centros de interesse, a herança da sua história — que forneceu
a trama interior do que esteve em causa no Vaticano II. As narrativas do Concílio
refletem quase exclusivamente intervenções de europeus, debatendo questões que
sugiram na história europeia. Tudo isso é verdade, mas só em parte. Com o
Vaticano II, enquanto o Papa João foi vivo, a completa liberdade de expressão
abriu todas as janelas, em todas as direções. Durante algum tempo, o horizonte
do modo de funcionar do Vaticano era o mundo todo. Chegavam vozes ou rumores de
todo o lado e a ressonância era universal, embora, em muitos casos, ainda só
pudesse ser virtual.
3.
A quem o censurava por não se intrometer nos debates conciliares, para defender
os documentos das comissões preparatórias, João XXIII respondia: "Estamos
em Concílio, não em audiências papais!" Morreu com um cancro, muito antes
de ver o desfecho da aventura que lançou aos quatro ventos. Em 1959, estava eu
em Génova, vestido com o hábito dominicano, a caminho de Roma. Um velho
anarquista italiano veio ter comigo, entregou-me um panfleto, explicando:
"Tu ainda és muito novo,
mas deves
saber que é urgente colocar uma bomba em Moscovo, outra em Washington, a do
Vaticano será a primeira a rebentar, é o próprio João XXIII." Em Florença,
no Convento de S. Marcos, encontrei Giorgio La Pira — acabava de chegar de
Moscovo —, levou-me à praça onde queimaram Fra Girolamo Savonarola para rezar
pela sua canonização e pela reforma da Igreja. Contei-lhe o encontro de Génova
e observou-me que as palavras acerca do Papa eram a pura verdade. Depois do Concílio,
a desejada reforma da Cúria vaticana nunca foi levada a cabo. João Paulo I (1912-1978),
o "papa do sorriso", manifestou o seu empenhamento na sua urgente
realização. O seu pontificado durou apenas um mês. Apareceu morto. As versões
apresentadas das causas e circunstâncias dessa morte nunca foram totalmente
esclarecidas.
Nos anos 80 -
90 foi varrida a teologia crítica europeia, a Teologia da Libertação da América
Latina e desqualificada a teologia africana e asiática, a chamada “teologia contextual"
do Terceiro Mundo, e sufocado o movimento das comunidades de base.
A visão e prática de uma hermenêutica
planetária do Concílio ficaram adiadas. Veremos se a Assembleia Geral dos
Bispos dedicada à Nova Evangelização a conseguirá retomar.
Não será
altura de mudar de alto a baixo o funcionamento do Vaticano ?
Aos muitos sinais de crise juntaram-se
manifestações e crispações, desde a Áustria até à Bélgica, acusando o
funcionamento da Cúria. Vieram, depois, os boatos sobre atentados ao Papa e as
queixas de Bento XVI de que está rodeado de lobos. Não será altura de mudar, de
alto a baixo, o funcionamento do Vaticano? Mas saberão os católicos como é que
ele funciona?
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Escreve
ao domingo
Público 11-03-2012