sexta-feira, 26 de abril de 2013

Imperativo de mudança

Estamos a viver no momento actual dois acontecimentos notáveis que devem ser objecto de nossa reflexão. NOVO BISPO DE ROMA Desde há cerca de um mês a comunidade cristã católica tem um novo Bispo de Roma, um novo ocupante da “cadeira de Pedro”, o Papa Francisco. Anda o mundo católico expectante - e mesmo algo surpreendido - com os sinais que dele nos chegam, do possível renascimento duma verdadeira Igreja evangélica. Uma Igreja pobre e para os pobres. Francisco deixa de fora as pompas, cultiva a simplicidade e os seus gestos e atitudes, falam-nos do desejo de se aproximar do “povo de Deus”, de ser o verdadeiro pastor do seu rebanho. Será que a base social da Igreja passará dos detentores de poder para os pobres que passarão a ter uma palavra a dizer? Tal mudança é essencial, nos dias de hoje, com o número de crentes na Europa a diminuir, com uma civilização tecnológica, globalizada e secularizada contestando a sacralização da vida e com a secundarização dos fieis e até de bispos, uma Igreja com graves problemas atingindo o prestígio e a honorabilidade de muitos sacerdotes, e com o domínio duma Cúria onde se começam a conhecer lutas de poder e até sinais de corrupção. Com o facto inédito da resignação dum papa, com a proliferação de seitas e de sintomas de religiosidade aberrantes, e sentindo a necessidade de se adaptar aos novos continentes em crescente desenvolvimento, e de culturas tão diferentes da europeia, a Igreja necessita de mudanças e de orientações mais condizentes com a vivência de Jesus Cristo. Ainda próximo do cinquentenário do Concílio Vaticano II, constatamos que muitas das suas recomendações têm sido verdadeiramente esquecidas, quando não, mesmo contrariadas. Estamos perante um imperativo de mudança, até porque vivemos uma tremenda crise no nosso País, na Europa e no Mundo, uma crise económico-financeira com as inevitáveis consequências sociais e éticas, uma verdadeira crise de valores, ou melhor, uma crise do “sistema” pelo qual nos regemos há cerca de um século. Um “sistema” que tem aumentado a produção de riqueza, mas que a concentra em poucas mãos, usando o motor do lucro, em vez da solidariedade. Mercantiliza o trabalho, sacrifica a própria natureza e gera imensos pobres e excluídos. É isto, o capitalismo que, mais que um sistema económico, é uma concepção de vida que inibe as liberdades e que “esmaga” os pobres. Esta situação está a exigir que os princípios evangélicos sejam propagados nas sociedades clamando por “uma Igreja dos pobres para os pobres” como proclama o Papa Francisco. 50 ANOS DA «PACEM IN TERRIS» Comemoram-se, igualmente, os cinquenta anos da Encíclica de João XXIII , a “Pacem in Terris”,( na sequencia da Mater et Magister) a qual veio introduzir na Doutrina Social da Igreja o imperativo da Paz mundial, proclamar a necessidade da Igreja ouvir o Mundo e os “sinais dos tempos”, não para os condenar mas para dialogar e, a partir deles, compreender e tornar a acção da igreja mais actualizada e ao serviço de todos “os homens de boa vontade”. Esta encíclica veio enriquecer a Doutrina Social da Igreja com uma dimensão mais global, alargando as suas preocupações a toda a humanidade, trazendo-nos, assim, igualmente um imperativo de mudança , pois anteriormente as encíclicas eram orientações doutrinárias que não tornavam tão explícita a promoção dos pobres e a distribuição da riqueza , “que foi dada a todos” . Centrar a ação dos cristãos na prática da solidariedade e no “cuidar dos outros”, valorizar o trabalho e humanizar as estruturas da sociedade – é a isto o que se chama política E a política tem por objectivo ultrapassar a violência e promover o diálogo e a reconciliação entre os homens. Não esqueçamos que o Evangelho não é neutro, visto que define o sentido da História dos homens. A luta pelo Reino de Deus, aqui e agora, exige a análise do terreno e a aplicação duma teoria política baseada no amor e na solidariedade que, como aconteceu com Jesus, leva a uma verdadeira revolução social que nasce dum desejo de justiça, de dignidade e de liberdade. A crise do “sistema” tem evoluído em constante deterioração das condições de vida das populações, provocando, entre nós, taxas de desemprego nunca atingidas, falências, dívidas e incumprimentos em número assustador e com difícil solução. E esta crise dos países do sul da Europa mina, já, e gravemente, outros de maior dimensão e abocanha os maiores países europeus. O nosso mundo necessita de uma melhor distribuição da riqueza e uma verdadeira promoção dos pobres, a ser levada a efeito pelos que queiram seguir os princípios e as orientações da “Pacem in Terris” , cujos 50 anos comemoramos. A nossa sociedade está necessitando duma mudança urgente. AO JEITO DE CONCLUSÃO O momento grave que atravessa a Igreja de Cristo, agora com a esperança do novo Papa Francisco; e a efeméride da “Pacem inTerris”, trazendo á actualidade todo o seu conteúdo, verdadeiramente inovado na Doutrina Social da igreja, são dois acontecimentos a exigirem uma mesma solução: um imperativo de mudança! O Mundo está a necessitar que os cristãos marquem a sua diferença na maneira de viver e na denúncia de tantas directrizes políticas erradas e que têm conduzido os povos ao sofrimento, à perda da esperança e a deixarem-se impregnar por orientações meramente economicistas, hedonistas e individualistas. E Deus não nos julgará pelo que dissermos e prometermos ou mesmo pelo que denunciarmos, mas pelo que fizermos: “Viste-Me nú (…) viste-Me doente (…), viste-Me pobre (…) e não Me ajudaste!”- (Mat. 25). É necessário que nós, que nos dizemos cristãos, demos uma resposta, no dia a dia, nas instituições, no governo da “polis”. Este mundo, este País, necessita imperiosamente de mudança, de sinais nítidos e numerosos de solidariedade, de interesse pelo cuidar dos outros, de apoio aos pobres, aos excluídos, aos desempregados, Necessita imperiosamente de mudar as orientações que levam à corrupção e ao sectarismo, e isso só é possível com “homens novos”, reconhecidos pelo “ser” e não pelo “ter”, que amem e sirvam desinteressadamente o seu próximo e se misturem como fermento na massa, e não se divorciem da vida das instituições que traduzem a organização da sociedade em que nos integramos – e isto é acção política! A Comissão Justiça e Paz de Setúbal, perante esta situação e estes factos notáveis que surgem na nossa sociedade e na nossa Igreja - o conjunto do Povo de Deus e os seus pastores- não podia deixar de fazer esta reflexão e levar os nosso irmãos a acompanharmo-nos nesta análise e a pensar na única solução que sugerimos: A necessidade imperiosa de mudar maneiras de ser, maneiras de nos conduzirmos, de assumirmos compromissos, maneiras de atuar nesta sociedade doente. “Sentir o cheiro das ovelhas”do rebanho, só possível com grande contacto e com uma vivência em comum com os nossos irmãos. Comissão Diocesana Justiça e Paz Setúbal, Abril de 2013