domingo, 20 de outubro de 2013

Uma Igreja Pobre para os Pobres

Tem ecoado pelos meios de informação esta afirmação do novo Papa, Francisco, e dela 
se têm tirado as mais diversas ilações.

O novo Bispo de Roma ao recusar todos os sinais tradicionais de poder, ao vestir com 
simplicidade, ao recusar os aposentos sumptuosos do Vaticano e tendo a preocupação de 
conviver com todos aqueles que o rodeiam, incluindo, em especial, as multidões que se 
acumulam na Praça de S. Pedro, dá testemunho da verdade do seu querer iniciar uma 
verdadeira mudança na Igreja Católica Romana.

Teremos de aguardar o resultado da acção das comissões que nomeou para a reforma da 
Cúria e até do Banco do Vaticano, acusados de verdadeiramente deterem o poder do 
governo de Roma e de serem sede de algumas irregularidades.

A ida de Francisco ao Rio de Janeiro abre enormes expectativas, agora mais serias - o 
que vai dizer á juventude, a sua ida a uma favela, como comentará a agitação actual que 
se vive na sociedade brasileira, agitação que põe em cheque os contrastes das nossas 
sociedades com apoio aos ricos e detentores do capital, mantendo sem voz activa os 
pobres e desprotegidos, para não falar em explorados.

A nossa Igreja tem uma história de séculos de não dar voz aos pobres. Ora uma Igreja 
pobre e para pobres não pode ser exclusivamente orientada por estudiosos, doutores
técnicos especializados, a maioria sem a verdadeira vivência dos problemas concretos e 
das repercussões emocionais da pobreza no íntimo dos pobres.

E a realidade é que mesmo entre os pastores da nossa Igreja, nas paróquias, nas 
dioceses, tomam os lugares de decisão membros das classes possidentes, endinheiradas 
e que ocupam os lugares de decisão.

Tem sido assim na Europa, e tem continuado assim nos países de outros continentes a 
que se chamam presentemente "países emergentes".

E com o decorrer dos tempos o cristianismo perde força na Europa e cresce nas 
Américas e em África - que certeiro foi o Espírito Santo dando-nos um Papa, "lá de 
longe", da América -Latina!

Mas com será possível dar voz e poder de decisão àqueles a quem Cristo privilegiou 
com as suas preocupações, arrostando com o poder religioso e até civil?

Temos vivido numa ideologia mistificadora da caridade, num romantismo da caridade
quando a Revelação nos ensina que o que está em jogo em toda a existência humana é 
uma escolha a favor ou contra o dom de Deus em Jesus Cristo: o Amor ao próximo em 
toda e qualquer circunstância, sempre, e - como Ele ensinou - até ao sangue se for 
necessário.

Ora o Evangelho não é evidentemente neutro, na medida em que afirma que a existência 
presente histórica, dos homens tem um sentido e deve concretizar-se em atitudes 
práticas e reais (recordemos o cap.25 de S.Mateus) - é sobre o comportamento prático 
que seremos julgados.

Ora os povos das cidades brasileiras andam agitados pedindo mais justiça na 
distribuição dos bens, melhor aplicação das riquezas em favor da saúde, do ensino ou da 
habitação e não em obras sumptuosas.

E os imperativos do Amor e da solidariedade tomam inadiáveis profundas mudanças 
sociais - e estamos no campo da política!

Estas considerações a propósito da visita do Papa 
Francisco ao Brasil colocam um problema existente também entre nós, desde sempre, e 
em especial na crise que estamos a viver - é urgente uma verdadeira revolução social 
em que os pobres sejam ouvidos e tenham voz própria - é hora da nossa Igreja começar


a evoluir e mudar e a dirigir-se ás origens.                  

MARIO DA SILVA MOURA 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

As premonições de Natália

"A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista".

"A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!"

"Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente".

"Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica".

"Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reacionário centrão".

"Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?"

"As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas ruturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir"."

Natália Correia
Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993

Todas as citações foram retiradas do livro "O Botequim da Liberdade", de Fernando Dacosta.