Tem ecoado pelos meios de informação esta afirmação do novo
Papa, Francisco, e
dela
se têm tirado as mais diversas ilações.
O novo Bispo de Roma ao recusar todos os sinais
tradicionais de poder, ao vestir com
simplicidade,
ao
recusar os aposentos sumptuosos do Vaticano e tendo a preocupação de
conviver com todos aqueles que o rodeiam, incluindo, em especial, as
multidões que se
acumulam na Praça de S. Pedro, dá testemunho da verdade do seu querer iniciar uma
verdadeira mudança na Igreja Católica Romana.
Teremos de aguardar o resultado da acção das comissões que
nomeou para a reforma da
Cúria e até do Banco do Vaticano, acusados de verdadeiramente deterem o poder
do
governo de Roma e de serem sede de algumas irregularidades.
A ida de Francisco ao Rio de Janeiro abre enormes
expectativas,
agora
mais serias - o
que vai dizer á juventude, a sua ida a uma favela, como comentará a agitação actual que
se vive na sociedade brasileira, agitação que põe em cheque os contrastes das
nossas
sociedades com apoio aos ricos e detentores do capital, mantendo sem voz
activa os
pobres e desprotegidos, para não falar em explorados.
A nossa Igreja tem uma história de séculos de não dar voz
aos pobres. Ora uma Igreja
pobre e para pobres não pode ser exclusivamente orientada por estudiosos, doutores,
técnicos
especializados, a maioria sem
a verdadeira vivência dos problemas concretos e
das repercussões emocionais da pobreza no íntimo dos pobres.
E a realidade é que mesmo entre os pastores da nossa
Igreja, nas paróquias, nas
dioceses,
tomam os
lugares de decisão membros das classes possidentes, endinheiradas
e que ocupam os lugares de decisão.
Tem sido assim na Europa, e tem continuado assim nos países de outros
continentes a
que se chamam presentemente
"países
emergentes".
E com o decorrer dos tempos o cristianismo perde força na
Europa e cresce nas
Américas e em África - que certeiro foi o Espírito Santo dando-nos um Papa,
"lá de
longe",
da
América -Latina!
Mas com será possível dar voz e poder de decisão àqueles a quem
Cristo privilegiou
com as suas preocupações, arrostando com o poder religioso e até civil?
Temos vivido numa ideologia mistificadora da caridade, num
romantismo da caridade,
quando a
Revelação nos ensina que o que está em jogo em toda a existência humana é
uma escolha a favor ou contra o dom de Deus em Jesus Cristo: o Amor ao próximo
em
toda e qualquer circunstância, sempre, e - como Ele ensinou - até ao sangue se for
necessário.
Ora o Evangelho não é evidentemente neutro, na medida em que
afirma que a existência
presente histórica, dos
homens tem um sentido e deve concretizar-se em atitudes
práticas e reais (recordemos o cap.25 de S.Mateus) - é sobre o comportamento prático
que seremos julgados.
Ora os povos das cidades brasileiras andam agitados pedindo
mais justiça na
distribuição dos bens, melhor aplicação das riquezas em favor da saúde, do ensino ou da
habitação e não em obras sumptuosas.
E os imperativos do Amor e da solidariedade tomam
inadiáveis profundas mudanças
sociais -
e
estamos no campo da política!
Estas considerações a propósito da
visita do Papa
Francisco ao Brasil colocam um problema existente também entre nós, desde
sempre, e
em especial na crise que estamos a viver - é urgente uma verdadeira revolução
social
em que os pobres sejam ouvidos e tenham voz própria - é hora da nossa Igreja
começar
a evoluir e mudar e a dirigir-se ás origens.
MARIO DA SILVA MOURA
