O Governo português entregou recentemente à Assembleia da República o Projecto de Orçamento de Estado para 2012. Já se sabe que, tendo em conta a composição da Assembleia, este projecto transformar-se-á na Lei do Orçamento da 2012, com eventuais modificações que poderão ser introduzidas após a chamada discussão na especialidade.
Antes de tecer algumas considerações sobre o texto que é conhecido, convém recordar que qualquer Orçamento de Estado é uma peça técnica de grande importância para a vida dos cidadãos uma vez que a fixação de níveis de receita e despesas do aparelho do Estado condiciona e determina instrumentos de politica económica, fiscal e social que afectam, de forma muito significativa, não só a vida dos cidadãos dos sectores público e privado, mas também a vida das empresas e outras instituições de carácter público ou particular. Em suma, o Orçamento de Estado não é uma peça inofensiva ou neutra e tem sempre associado uma certa concepção do Estado e da Sociedade, bem como um modelo ideal de relacionamento dos cidadãos.
Este Projecto de Orçamento para 2012 surge num momento histórico caracterizado por uma crise profunda que se sente à escala nacional, europeia e mundial. Portugal, como de resto outros países, ao longo dos anos, para manter e aumentar os níveis de qualidade de vida dos seus cidadãos foi recorrendo a créditos internos e externos acumulando, assim, um dívida que ultrapassa os limites do razoável. Foi então necessário recorrer à ajuda externa e consequentemente ao estabelecimentos de acordos e compromissos com a chamada TROIKA.- FMI, BCE e C E
Compreende-se, e até se aceita, que o Projecto de Orçamento para 2012 seja um orçamento de contenção, que procure reduzir o deficit das contas públicas, elimine gastos supérfluos, e respeite compromissos assumidos pelo Estado Português com os representantes dos seus Credores.
Porém, ao analisarmos com algum pormenor este Projecto de Orçamento, verificamos que ao contrário do que seria razoável, estamos em presença de um Orçamento que ultrapassa limites de contenção e metas assumidas com a TROIKA. Não conseguindo eliminar gorduras no Estado vai por um caminho «fácil» de aumentar impostos e reduzir gastos com Pessoal. (salários e remunerações acessórias).
Por este caminho, o exagero na contenção terá um efeito muito negativo A quebra do PIB (Produto Interno Bruto) de 2,8% (que o Governo prevê para 2012) será ultrapassada em muito. Para alcançar a meta do deficit fixado, o Governo esquece completamente a necessidade imperiosa de criar riqueza, condição siné qua non para a viabilidade futura do país.
Uma medida assumida no Orçamento de 2012 é o aumento do IVA – Imposto de Valor Acrescentado - por via da passagem de bens que era taxados às taxas média e reduzida, para a taxa normal. São afectados produtos alimentares essenciais, que ficarão mais caros e a restauração. O Turismo, que como se sabe, gera importantes receitas, ficará muito afectado. Basta ter presente que outros países Europeus que concorrem com Portugal têm taxas de IVA bem mais baixas. Esta subida do IVA afectará de forma cega o Consumo e não conseguirá, por via da retracção, gerar as receitas que o Governo fixou
O Orçamento de 2012 é um orçamento duro, que exige sacrifícios exagerados a muitos cidadãos e que, ainda por cima, apresenta uma incerteza grande em relação ao alcance das metas fixadas.
Um outro aspecto crítico deste Orçamento é, como muitos tem referido, a insensibilidade social. Cortes cegos – a partir de percentagens fixadas -, na Saúde na Educação, Cultura, entre outros Sectores. Também os apoios sociais aos cidadãos e à Instituições de Solidariedade Social apresentam reduções que estão para além dos limites mínimos aceitáveis.
A nível do IRS – Imposto sobre Rendimento das Pessoas Singulares - a criação de mais um escalão para rendimentos mais elevados, parece justo. Porém, ao nível das deduções à colecta, esta atinge classes mais desfavorecidas e traduzir-se-á num aumento de Imposto.
Em jeito de conclusão, julgo poder dizer-se que este Projecto Orçamento de 2012 deveria ser retocado e alterado. Deveria ser abandonada a «obsessão» pelo cumprimento do deficit e dos prazos fixados para satisfação dos compromissos. Deveria ser encarada a hipótese de baixar o IRC para estimular as Empresas a produzir, sobretudo a exportar. Criar incentivos ao investimento interno e externo. Distribuir os sacrifícios de acordo com os meios que cada um dispõe protegendo os mais desfavorecidos.
Oxalá que as alterações que venham a ser introduzidas, pelos Deputados da Assembleia da República, neste projecto de Orçamento de 2012 venham neste sentido, para bem de Portugal e dos seus cidadãos.
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António Soares


