segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Economia Solidária


- O destino universal dos bens e opção preferencial pelos pobres –




Na noite chuvosa de 11 de Fevereiro, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Setúbal, aconteceu – por iniciativa da Comissão Diocesana Justiça e Paz em parceria com a Cáritas Diocesana – mais do que uma conferência, como era suposto ser, uma noite de reflexão alimentada pelo Professor Roque Amaro, na pele de economista cristão, empenhado em repensar os sinais dos tempos, em ordem à reformulação do conceito de Economia.

Começou por nos propor três objectivos:

- dar algumas pistas para que não se encare a economia solidária como uma economia de margem mas uma economia do futuro , tirando-lhe a carga filantrópica para a tornar emancipadora e libertadora;

- testemunhar, como economista, o que, até hoje, a Economia produziu de bom e de mau;

- provocar as duas instituições organizadoras do encontro para o questionamento e reformulação dos conceitos de Justiça e Paz e Caridade.

Desde que, há uns 200 anos, se descobriu que as pessoas podiam ser mais felizes tendo mais “coisas”, encetámos o caminho que parte da subsistência rumo à ganância, criando, progressivamente, vários mitos e auto-convencendo-nos, de que nós, europeus, é que sabíamos o roteiro para a felicidade:

- o mito de que o crescimento económico levaria ao desenvolvimento;

- o mito do economicismo, individual ou colectivo, procurando provar que se é mais
feliz, tendo mais “coisas”;

- o mito do poder absoluto do ser humano que quer dominar a Natureza para o seu serviço, marcado pelo antropocentrismo renascentista que abafou, completamente, o teocentrismo anterior.

Cheios destas certezas e arrogâncias, demos cabo do equilíbrio da vida no Planeta, ignorando ou esquecendo que a verdadeira base da economia são as plantas e não as fábricas!. Proclamámos a supremacia da inteligência sobre os sentimentos, relativizando a componente afectiva e relacional. Ora, não é por aqui que comprovaremos o destino universal dos bens e, muito menos, a opção pelos pobres.

Quando, actualmente, falamos de “crise” , estamos a chegar ao cerne da questão porque, efectivamente, esta história, velha de 200 anos, está a chegar ao fim e os primeiros sinais de alerta vêm-nos, precisamente, da Natureza. Destruímos o ambiente, abandonamos os velhos, isolamo-nos nas tecnologias, criamos solidão…

Mas, há novas esperanças a nascer naqueles que, num impulso vindo “de baixo”, recusam o produtivismo (em todas as suas vertentes) para dar lugar a formas solidárias de “sentar à mesma mesa”, para ter tempo de se relacionar com os homens e todos os outros seres da Natureza.

Este novo olhar leva-nos a assumir uma solidariedade pluridimensional: com as outras culturas, com os territórios marginalizados, com a lógica democrática de que ninguém pode decidir por nós mas em governança partilhada (Estado, empresas e associações da sociedade civil).

Em Economia Solidária – mais abrangente que Economia Social – os principais actores não são os investigadores mas os “fazedores” no terreno. E é neste sítio que se cria a Esperança que já é realidade em centenas de realizações florescendo por todo o mundo (sobretudo em África e América Latina) e, também, em Portugal.

Temos tudo o que é necessário para a criação de focos de Economia Solidária mas, “só há libertação para quem está no cativeiro”!

O estado actual da Economia Solidária ainda não consegue dar resposta às necessidades sociais mas o seu papel fundamental, aqui e agora, é fazer “mexer” o Estado e as Empresas, juntando três componentes:

- dignificar a contratualização dos recursos do Estado, o que não significa
subsidiodependência;

- maximizar os recursos das associações em economia solidária, em ordem a
“vender produtos” de qualidade crescente, o que não é trair a pureza dos seus
objectivos;

- valorizar a economia da dádiva, da partilha de serviços entre organizações, da
Importância do voluntariado.

Para terminar – e como pista de reflexão para as duas instituições promotoras do encontro – pensemos que:

- temos que abordar a Justiça de uma forma mais sistémica, alargando os campos de luta à ecologia, à cultura, à ocupação territorial, à produção de conhecimento (que

não só o Académico) para que cheguemos a uma Paz dinâmica, em construção com
toda a Natureza. Para além das muitas guerras que ainda grassam pelo globo, vivemos
mais em coexistência do que em Paz;

- no exercício da Caridade, não nos sintamos os”bons” que ajudam os “coitadinhos
pois a solidariedade só é efectiva se trabalharmos ao lado e com as pessoas e a
sociedade, em geral. E não podemos esquecer-nos de que, os deserdados da História,
é que fazem nascer mudanças!

Podemos concluir dizendo, para o público que aqui temos, que a Economia Solidária, é, realmente, o lugar da transcendência onde se procura espaço para o Amor, onde se visa o regresso à ética e se procura mais a qualidade que a quantidade. Mais lugar ao SER e ao ESTAR, como transcendência interior e social e ecológica.

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